AMOROSA, a fênix ressurge

Muito já se falou e escreveu sobre a itabaianense Antônia Amorosa, uma das maiores expressões musicais do Nordeste, cantora nata e dona de inúmeros adjetivos, eis que agora ressurge com novo e vigoroso projeto: “Amorosa & convidados” a partir de 17 de agosto no Shopping RioMar.

Enquanto prepara nova cria, o álbum que está em fase de prensagem, a cantora concede nesta entrevista exclusiva ao Blog do Ronaldson um pouco de sua vida artística, entre vitórias e infortúnios, eis seu melhor adjetivo: guerreira. Leia e vá conferir os shows.

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Nos palcos, a identidade de uma entidade artística

BLOG DO RONALDSON – Qual a proposta desta nova série de shows? 

Amorosa – Estou sendo homenageada pelo design de interiores, Hélio Aguiar. Quando ele me disse que faria um ambiente com um pequeno palco, pensei à primeira vista em fazer uma apresentação na abertura e no encerramento do evento, que acontecerá no RioMar. Depois, repensei – por que não movimentar a cena musical com interações locais e intercâmbios!? E esta proposta criou corpo e vamos fazer algo simples, mas com muito amor à música. 

BR –  O que esperar do repertório de “Amorosa & Convidados”? Conterá também inéditas, músicas do próximo álbum?

Amorosa – Farei um passeio por canções que marcaram minha carreira e mostrarei um trabalho inédito onde musiquei a obra de Hilda Hilst. Ele foi mostrado publicamente há seis anos atrás. E será ouvido após sete anos, na mesma data onde musiquei os 85 poemas da obra Júbilo Memória Noviciado da Paixão. O público ouvirá 21 poemas selecionados. Quanto ao repertório de cada dia, serão shows temáticos, sendo divididos da seguinte forma: Dia 17 – Homenagem a Ismar; 18- Homenagem a Elis; 19 – Homenagem a Bethânia; 20 – Participação de  compositores sergipanos; 21 – Obra de Hilda Hilst; 22 – Homenagem a Gonzaga; 23 – Sarau com meus filhos, Glau Marcel e Gabriel; 24 – Homenagem a Elba; 25 – Sarau com diversas cantoras sergipanas; 26 – Sarau Fé, Amor e Esperança; com músicas que tocam minha alma de forma especial  e, no encerramento, dia 27, participação do Brasileiríssimo onde interpretarei peças de Adoniran, Noel Rosa e Dorival. A ideia é mostrar a influência destes artistas na minha carreira, considerando que comecei como uma cantora de MPB, interpretando especialmente cantoras como Elis, Bethânia, Elba, o próprio Gonzaga, além de compositores consagrados do cancioneiro popular. Isto, sem esquecer do compositor que gravei suas músicas em quantidade significativa, como é o caso de Ismar Barreto. 

BR – Fale sobre as participações especiais, qual foi seu critério para os convites?

Amorosa – O critério envolveu empatia, qualidade musical dos convidados, além do meu desejo em mostrar o maior número possível de artistas excelentes que temos, sem me prender aos padrões. São 5 convidados interestaduais (Mônica San Galo, Jota Velloso, Sandra Belê, Adelmário Coelho e Del Feliz), e mais de 30 artistas sergipanos. 

BR – Proposta já muito utilizada em outros Estados, os shows em shoppings ou no formato pocket show começam a se tornar frequentes em Aracaju. Você vê como um bom nicho de mercado a ser explorado?

Amorosa – Confesso que não pensei nesta perspectiva. Quando vi que estava com um espaço disponível para movimentar e ajudar a dar vida à nossa cena musical, resolvi fazer alguma coisa com o apoio de diversos amigos que se somaram. Eu faria a mesma coisa, fosse em um shopping ou qualquer outro espaço. O amor à música é o que me move. Não estou sendo remunerada. Minha motivação é pela arte. 

BR –  Sergipe tem muito de modismo em casas com música ao vivo, elas começam, acontecem com muito sucesso e depois são extintas. O público fica sem referências na noite pela falta de continuidade. Qual sua opinião a respeito.

Amorosa – Falta identidade. O Cariri sobrevive a tudo isso porque a tem.  Quem abre um espaço apenas para lucrar, não demora por aqui. No Cariri, o dono ganha, mas ele ama o que faz. 

BR – Você é uma artista que conquista públicos onde quer que se apresente. Por que não quis investir na carreira fora do Estado pois já está mais que provado que sempre há uma evolução para o artista…Você já respondeu isso antigamente, mudou sua forma de pensar?

Amorosa – O amor à família e à minha terra falou mais alto. Eu queria crescer, claro, mas não queria pagar o preço de virar as costas para Sergipe porque sabia que, se eu fosse embora, não voltaria mais. Eu me conheço. E se um dia eu for, tenho certeza que não voltarei.  Não sei andar de ré. Ou fico, ou parto. E qualquer uma das duas decisões, sempre são radicais. Dar adeus ao que se ama, para mim, é como morrer estando vivo. 

BR – Você cria muita expectativa em relação a cada projeto e ao público?

Amorosa – Não faço isso propositalmente. As pessoas tem carinho por mim, por conhecerem minha história de luta e superação. Isso as emociona porque significa testemunhar a fênix de um ser que respira arte. Então, se quer saber o que aconteceu, o que vem, o que pode ou não, ter mudado. Talvez seja isto que cause essa possível expectativa. Já não aguentava mais, as pessoas me parando na rua e pedindo para que eu voltasse a cantar. Até que repensei e vi que eu não podia enterrar um dom que Deus me deu. Só que desta vez, Deus está muito mais presente do que antes. A presença de Deus me amadureceu. 

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O lado escritora: entre poemas de cordel e a feitura da autobiografia musical

BR –  Qual o maior anseio em relação a sua carreira. Há artistas que se acomodam e não nutrem mais ousadias ou esperanças. Você acha que já foi ao “topo possível” na carreira?

Amorosa – O único topo que sonho é subir montanhas, lugares que me fascinam. Eu sou como uma criança dentro de um universo que pode ser modificado como eu desejar. Não coloquem rótulos, não me cobrem padrões. Eu canto o que eu quero cantar, como eu quero, quando eu quero. Canto a música do meu país, embora me sinta num parque de diversão quando canto regional. Mas, quando canto alguma melodia com poemas de um verdadeiro poeta, de uma canção que estremece minha alma, é como se eu estivesse no lugar mais alto do planeta – não tenho vícios mas, quando canto assim, entro em transe, e vejo céu, mares, pássaros, água, muita água, florestas, sinto Deus, e me vejo no alto de uma montanha – estas imagens me trazem paz. Já no topo que a mídia criou para os artistas, não – eu não me vejo! Este lugar, penso, destruiria meus dons. O saudoso Gélio Albuquerque dizia que eu vivia boicotando minha carreira. Talvez sim, talvez não. Eu só não queria dizer não à minha vida e minha liberdade, para ser prisioneira do sucesso. Felicidade para mim, é ir no mercado, as pessoas lhe cumprimentar normalmente, sem rasgar a sua roupa, nem lhe obrigar andar com guarda-costas. Meu anjo da guarda me basta!

BR – A Amorosa dos palcos é diferente dos discos, em que sentido mais especificamente?

Amorosa – Acho que a Amorosa dos discos é mais fechada porque sente muita falta de pessoas. Queria fazer um cd com gente dentro do estúdio. Não canto para mim! Tenho que cantar para alguém. E o cd me impede de receber esta energia do outro. 

BR – Você é cuidadosa com seus shows: figurino, cenário, repertório, expressão corporal. O que falta inovar?

Amorosa – Se eu tivesse dinheiro, não faz ideia do que eu já teria feito. Nenhum show seria igual ao outro. Minha mente germina ideia. Mas, meu bolso, não acompanha meus sonhos. Faço apenas o que é possível.

BR – Você deu uma parada nos shows antes da volta para comemorar seus 50 anos, cansou com a lida inglória de ser artista em Sergipe?

Amorosa – Cansei do mercado, das coisas que testemunhava nos bastidores e me dava asco; cansei do empresariado coligado com autoridades desonestas; cansei de ver minha arte ser lançada a quem não merecia ouvir; cansei de defender minha terra quando muitos não estavam nem aí para ela; cansei de ser perseguida como artista. Disse a Deus que estava cansada e precisava parar, se não morreria. Trabalho desde os 11 anos, quando perdi meu pai. Nunca soube o que era férias. Perdi noites na minha juventude. Passei pelo inferno, no sentido de luta para sobreviver, mas ele não pode me queimar. Porque a luz de Deus estava e está no meu caminho. A parada foi muito importante. Um dia, Dona Canô me viu cantar e me aconselhou que eu jamais parasse – ela me disse isso dez anos antes da minha decisão. Não acatei seu conselho. Parei, mas Deus me deu a oportunidade de voltar. E se voltei, há algo que precisa ser concluído. Deus é lindo e perfeito, e eu sou Dele. Canto o que alguns cristãos chamam de músicas seculares – para mim, não existe música secular. Só música de alta ou baixa qualidade. E o que canto, não envergonha o amor que sinto por Deus. Canto o que exalta a alma humana. Canto o amor, a alegria, a prosa, o bom humor. Canto a felicidade. Quanto ao fato de ser artista sergipana, e muitos usarem isto para diminuir o valor dos seus artistas, podem dizer o que quiserem – sei quem sou e qual minha missão. Meu compromisso é com Deus! Com a vaidade dos homens, não. 

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O compositor Ismar Barreto e sua melhor intérprete: gravações antológicas e prêmios 

BR – Na sua ótica, como vê a música sergipana hoje, ainda sofremos as mesmas mazelas de décadas anteriores? Não há a impressão que houve um certo retrocesso?

Amorosa – Descobri que reclamar não resolve nada. Cada um deve fazer sua parte, plantar sua vinha, fazer sua música, ser feliz com seu quinhão. Aprendi que o Estado não é pai, a Prefeitura não é mãe, e cada um só dá o que tem. Aprendi também que, se vivi mais de trinta anos fazendo música em Sergipe, é porque existem sergipanos que valorizam sergipanos. E não irei me importar com quem não valoriza e se escraviza apenas para aquilo que a mídia lhe impõe. Eu entendo que são vítimas, e eles não têm como gostar do que não conhecem. A maioria dos jovens não conhecem os artistas sergipanos, isto é fato. Muitos acham que artista sergipano só canta em casa noturna enquanto eles quebram o caranguejo. Fazer o quê! Quanto aos compositores novos, acho que Sergipe tem gente boa, que faz música boa. Só estamos em um palco menor, de alcance menor, de resultados menores. Temos obras belíssimas de compositores consagrados da nossa música, precisando de releituras. Temos também novos compositores fazendo música para o mundo ouvir. Mas, se esperarem que alguém lhes bata a porta e diga que eles são bons, o mundo não saberá deles. A internet está aí para qualquer um usar como quiser. Quanto ao discurso eterno da reclamação, acho que já deu. Temos que mudar este foco, crescer como artistas, parar de agir como crianças dependentes daquilo que o poder público pode fazer por nós, e escrever nossa história do nosso jeito. Quem sacar que os tempos são outros, fará uma linda história musical. Estive do outro lado do balcão para tentar fazer alguma coisa – só consegui 5% do que queria fazer porque não há recursos, nem vontade política suficiente. O fato é um só – quem esperar que lhe deem flores, ao invés de plantar seu jardim, as borboletas vão dançar em outras florestas. Quanto ao avanço ou retrocesso, não quero entrar neste mérito. Sei que tem muita produção por aí que preciso conhecer. Como julgarei o que não ouvi o suficiente? Não há retrocesso. Os criadores é que estão nas suas cavernas. Deviam sair porque o mundo aqui fora é bem melhor! 

BR – Sendo uma cantora genuína, com grande expressão no forró, como vê a transformação industrial em relação a esse gênero hoje?

Amorosa – Para mim, a maior destruição da nossa música está amparada na mídia comercial. Aquela que não tem compromisso com o que tem valor cultural, mas apenas econômico.  Quem chegar com a grana ocupa o pódio. Sei que a cultura tem sua dinâmica natural, mas ela não deveria ser deturpada, confundida, camuflada – mas, a mediocridade também tem seu espaço cultural, né? Sabemos que o forró é um gênero musical que deve ser preservado. Se algo novo surge, que venha. Mas, que cada um conheça suas características, estude suas células e defina sua composição, sem usufruir de algo que não plantou. O forró merece respeito. E ele não é pé de serra, tradicional, universitário ou moderno. Não inventem derivados para o forró.  Forró é forró! E ponto final. 

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Amorosa com seus melhores frutos: Glau, Gabriel e Amora. Arte, doação e renúncia

BR – Creio que você sempre teve cacife para figurar entre as grandes cantoras de forró do Nordeste (como Anastácia, Marinês, por exemplo) e consequentemente do Brasil, faltou uma grande gravadora, um grande empresário, sucessos nacionais? Você acha que faltou este reconhecimento de fato no nicho mercadológico?

Amorosa – Quando chego em alguns Estados, confesso, não tenho dimensão de quem sou para o inconsciente coletivo. Essas coisas não ocupam a minha mente. Então, percebo que fiz um trabalho que me promoveu em algumas regiões. A única diferença é que eu não quis renunciar para fazer este investimento mais amplo. Talvez, entre todos os nobres convites que já recebi, partiu de um conterrâneo, Joel Silveira, que me conheceu aqui quando esteve secretário de Cultura no Governo Valadares. Ele estava, todos os domingos, no Hotel da Ilha, só para me ouvir cantar. Quando fui para o Pixingão em 1988, ele começou a ligar para cantores e artistas da Globo – “Venham na minha casa conhecer uma das maiores artistas deste país.” Naquela ocasião, me convidou, ao lado da sua esposa D.Iracema, para que eu fosse morar com eles em Copacabana. – “Venha para cá que você não vai sair para conhecer o Rio. O Rio virá aqui conhecer você!” E lhe respondi: – “Não posso aceitar seu convite, Joel! Deixei um lindo bebê de três meses em Aracaju, e ele precisa de mim.” Então, ali, eu decidia meu destino – eu era uma mulher, cantora, que queria cantar sim, mas que precisava ser mãe e viver esta rica experiência de doação e renúncia. Ao invés de priorizar o sucesso e deixar a família para depois, eu escolhi a família. Porque quando Deus quer que alguém brilhe, ele pode estar na velhice como Abraão e Sara – a luz há de brilhar, de um jeito ou de outro. Porque para mim, a arte é atemporal ao artista – ele pode estar cantando para uma geração que ainda não nasceu. Seguirei lançando minhas sementes nos solos que me forem permitidos. Sem agonia, sem sede ou fome de sucesso. Que bom que esta doença coletiva não me alcançou. Tudo é pelo sucesso, para o sucesso, em nome do sucesso. Para mim, tudo que faço, é para ser feliz e fazer os outros também. Seja com ou sem sucesso. Porque nisto, o relativo passeia. Só sei que, esteja eu aqui ou acolá, (e olhe que já andei um bocado – cantei em quase todos os Estados do Brasil e quatro países), o fato de gostar de cantar mais em minha terra, não faz de mim uma cantora menor que outras que estão no “pódio da mídia”. Eu apenas escolhi dar o meu melhor para quem eu amo de verdade! Porque quem não cuida da sua aldeia, não é digno de entrar na aldeia de ninguém. Sou feliz assim, “sem dinheiro no banco, vinda do interior e sem parentes importantes”. Mas, eu canto. 

 

 Amorosa em ação: senhora dos palcos

 

 

(Fotos: Arquivo pessoal)

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